Tem uma palavra que eu uso muito em consultório: potência. E uma palavra que eu evito sempre que possível: performance.
Elas parecem parentes, mas são quase opostas. Performance é o que a gente faz pra ser vista. Potência é o que a gente é quando ninguém está olhando.
O cansaço de quem se prova o tempo todo
A maioria das mulheres que chega na minha sala chega cansada. Cansaço de quem acorda já listando o que precisa entregar, de quem dorme rascunhando o dia seguinte na cabeça, de quem sente que se relaxar um dia o castelo cai.
Esse cansaço tem nome técnico (esgotamento, ansiedade generalizada, sintomas de depressão). Mas tem também um nome cultural: a gente foi ensinada que valer a pena é ser produtiva. Que descansar é preguiça. Que sentir é fraqueza.
Performance pede aplauso. Potência só pede espaço.
O que é potência, então?
Potência é a sua força natural. A que aparece quando você está descansada, quando você está em paz com você mesma, quando você não precisa convencer ninguém de nada. É o que sustenta uma vida inteira, não só uma semana de produtividade.
Algumas pessoas descobrem essa força:
- Em silêncio, ao ouvir o próprio corpo
- Numa conversa em que não precisaram fingir
- Numa decisão difícil que tomaram sem perguntar a ninguém
- Numa rotina simples que finalmente parou de doer
- Num "não" dito sem culpa
Potência não é grandiosa. Quase nunca é. Costuma chegar quieta, quase invisível pra quem está acostumada a buscar resultado.
Por que isso aparece tanto em terapia
Boa parte do que a gente faz em sessão é separar esses dois fios. Distinguir o que você faz porque quer do que você faz porque foi ensinada a fazer. O que é escolha sua do que é cobrança herdada. O que sustenta de verdade do que só mantém a aparência.
Isso não é um processo de "se descobrir" no sentido new age. É um processo clínico, com método, de devolver a você o critério sobre a sua própria vida. Devagar. No seu ritmo.
Sinais de quem está performando demais
- Você se sente exausta mesmo quando está fazendo o que ama
- O descanso te dá culpa, não alívio
- Você precisa do feedback dos outros pra saber se está bem
- Conquistas perdem brilho rápido demais
- Você não lembra a última vez que ficou sem fazer nada e gostou
- Existe uma "você produtiva" e uma "você de verdade" que quase nunca se encontram
Onde começa o trabalho
Em pequenas perguntas, muito repetidas:
- O que eu sinto agora? (sem analisar, só sentir)
- O que eu quero agora? (sem julgar se é "correto" querer)
- O que eu posso fazer agora pra que esse hoje me sirva?
Parece simples. É simples. E é difícil pra caramba quando você passou anos perguntando primeiro o que os outros queriam, o que era esperado, o que iria render mais.
Para encerrar
Sua potência não precisa virar discurso. Não precisa virar resultado mensurável. Não precisa virar storytelling. Ela só precisa de espaço pra existir. E, às vezes, de alguém que escute junto com você enquanto ela aprende a ocupar esse espaço de volta.
Quando quiser conversar sobre isso, me escreva.
Texto inspirado em uma reflexão publicada originalmente em julho de 2019, revisitada em 2026.