Quantas de nós crescemos em lares violentos e até hoje ainda temos dificuldade pra assumir? Parece que nomear torna indigesto. Pesado. "Será que eu não tô exagerando?"

E aí a gente cresce naturalizando um monte de desrespeito. Afinal, "não foi sempre assim?" Uma voz alterada, um grito, alguns palavrões, xingamentos, a porta que bate, um soco na mesa. "Vou contar pro teu pai!" Nos ensinaram que medo era respeito.

Tudo pelo amor. Pela família. Pela educação.

O que aprendem as meninas

Meninas "ensinadas" a serem "educadas", que não respondem, nem falam alto, comportadas. Jovens que "se dão o respeito", se vestem de maneira apropriada. Mulheres que "sabem o que pode acontecer".

Hoje a gente sabe. Apanhar. Morrer. Até quando mulheres morrerão e a culpa ainda recairá sobre elas, porque "elas é quem se colocaram naquela situação"?

"Ela que tem dedo podre." "Ela que irritou." "Ela que pediu."

E são elas que seguem tentando salvar o relacionamento, salvar a família, aguentar tudo "pelas crianças", esperar o tempo certo pra se organizar financeiramente. Seguem aguentando um pouco mais, um pouco mais. Algumas adoecem. Outras são mortas.

O ciclo do "será que tô exagerando?"

Demoram a acreditar que um relacionamento adoeceu, demoram a se ver dentro de uma relação violenta. Porque o que aprenderam em casa era exatamente isso: voz alterada virou normal, susto virou normal, ser tratada com desprezo virou normal. A história continua porque parece familiar.

Nomear é o primeiro ato de cura. Chamar de violência o que é violência. Não pra gerar sofrimento adicional, mas pra finalmente reconhecer o que tava ali desorganizando a vida há muito tempo.

O que a psicoterapia pode oferecer

No consultório, esse trabalho de nomear é lento, é cuidadoso, é respeitoso. Não tem urgência de te empurrar pra nenhuma decisão. Tem urgência de te dar um lugar onde você possa, finalmente, falar com palavras claras. Sem precisar amaciar pra ninguém. Sem precisar proteger ninguém. Sem precisar "explicar".

O que a terapia oferece pra mulheres que vieram (ou que ainda estão) em relacionamentos violentos:

Quando procurar ajuda urgente

Se você está em situação de violência atual ou risco de vida, busque ajuda agora:

Por último

Se você se reconheceu em alguma parte desse texto, você não tá exagerando. Você não tá errada. E você não tá sozinha. Nomear é coragem. Buscar ajuda é coragem. Sair, quando der, é coragem. Ficar viva, todo dia, também é.

Quando quiser conversar sobre isso, com cuidado e com calma, me escreva.

Texto inspirado em uma reflexão publicada originalmente em dezembro de 2025. Em situação de risco, ligue 180 (Central da Mulher), 190 (Polícia) ou 188 (CVV).